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Friday, October 03, 2014

A VIAGEM DE REGRESSO - Parte III

Não há duas sem três! (partes)
Chegada a Madrid fui logo à wc no terminal de chegada, o 2. No avião não dá jeito por ser muito claustrofóbico e ter de pedir licença à pessoa do lado. Ainda assim, o lugar à janela, antes ou depois da asa, é sempre o melhor!
Aliviada e já de mochila às costas com o bilhete na mão dirigi-me às televisões das partidas para ver qual o meu terminal: é o 1. Ok... há-de ser já aqui ao lado. Comecei a olhar à volta para ver indicações mas não dizia para que lado era, só indicava letras. Fui perguntar a um segurança. Indicou-me que deveria seguir sempre a letra B e que seria só ir em frente o tempo todo. Alertou-me ainda de que seria um pouco longe. Pffff depois do que andei em Lisboa já estou calejada!

Comecei a andar na boa, é só seguir as indicações. Já fiz o check in online, por isso, estou descansada da vida. ... AI que aquilo é mesmo muito longe! Afinal é na ponta oposta do aeroporto! Quem é que se lembra de fazer terminais tão longínquos?! Gente burra pah! Ao menos que disponibilizassem uns carrinhos tipo os de golfe para o pessoal ir andando, ou então uns Segways

Ou ainda pode ser umas coisas deste género... Que fixe!


Bem, a certa altura a mochila começou a pesar e dei por mim em posição de Corcunda de Notre Dame. Achei que seria uma boa altura para apanhar um carrinho e pousar a mochila. Daí para a frente comecei a empurrar um carrinho que deslizava como uma bailarina de patinagem no gelo! Se tivesse mudanças até eu ia lá em cima! Andei que me fartei, posso calcular que tenha sido 1,5km até ao terminal de partida. Pelo caminho ia passando por lojas e restaurantes. Não que tivesse muita fome, até porque ia ter direito a refeição no avião, mas "apetece-me algo..." Não tenho Ferrero Rocher mas  um pouco mais à frente tenho um Burguer King que vende uns sandys (odeio a palavra) muito apetecíveis nesta altura!



Foi uma boa escolha?! Oh se foi! Claro que tive de pedir em espanhol:
- Hola! Un Sandy de fresa, por favor - só assim me entendem.
A parte do pagamento é que foi diferente. Para pagar tinha de inserir as moedas (ou notas) numa máquina que estava no balcão, em frente à registadora dele. É prático e diferente!
Bem, peguei no meu "bombom" e fui sentar-me numa mesa com o meu carrinho ao lado. Tinha ainda bastante tempo até começar a entrar. Mas sabia que não ficaria descansada enquanto não estivesse mesmo à porta... Digamos que estava semi-relaxada.
Quando fui sentar-me perto da entrada estava ainda muita gente para entrar noutros vôos. Uma fila enorme de gente mesmo ali à minha frente. Até andou rápido e ainda havia pessoas a correr para a entrada. Algumas já atrasadas. Às tantas comecei a reparar que continuavam a chamar por uma pessoa. Já andavam 4 funcionários a correr o aeroporto de uma ponta à outra aos berros pelo nome da pessoa e o destino do vôo. Mas ninguém respondia nem aparecia. Sem exagero, só meia hora depois, no mínimo, é que apareceu uma senhora acompanhada por duas funcionárias com caras de poucos amigos acompanhadas de um ar discreto de vitória. Parecia cena de faroeste quando o xerife e o ajudante prendem algum bandido e o levam para a única cela da aldeia.

Eu continuava sentada a olhar para um balcão vazio de gente... paisagem oca e fria... Só quero entrar para descansar sem medo de perder uma coisa tão grande que voa sem bater as asas... A poucos metros de mim estavam umas máquinas de vending com sandes empacotadas (daquelas que parecem tão emborrachadas quanto sabem), pacotes de batatas fritas, chocolates, sumos e águas... muitas águas... e eu estava cheia de sede. Olhei para lá como as pudesse comprar só com o olhar e assim viessem ter até mim e me saciassem a sede... ena ena, 'tou cá com uma preguiça...

À minha volta não acontecia mais nada de jeito, a não ser umas taralhoucas atrás de mim a gozarem em inglês com os nomes que iam sendo anunciados pelos altifalantes. Em frente às máquinas estavam dois homens... da minha idade, mais ou menos, já posso chamar homens e não rapazes... que confusão que isso me faz... enfim! Estavam esses dois homens e olhar para as máquinas como se estivessem a observar umas verdadeiras obras de arte. Um deles tinha a carteira na mão, mas estava indeciso entre um pacote de batatas fritas e um chocolate... acabou por levar os dois! O outro ficou ainda mais uns minutos de pernas abertas, braços cruzados, ombros ligeiramente inclinados para a frente e a espreitar por cima dos óculos! De vez em quando dava um passo atrás, depois ao lado para ver a outra máquina, voltava para a mesma... e ali ficou uns 10 minutos! Até se ir embora sem comprar absolutamente nada! Nem uma água! A sério?! Talvez não tenha percebido como a coisa funciona ou então... lá na cabeça dele deve ter feito todo o sentido!

Eu começava a ficar com sono, por isso, resolvi finalmente levantar-me para comprar a água bem fresquinha e talvez isso me faça acordar. No balcão já estavam os funcionários de conversa animada, mas ainda não chamavam ninguém. Comecei também a pensar nas horas de vôo que ia ter pela frente e levantei-me como que de um pulo! Não querendo fixar a obra de arte para não estragar meti uma nota para ficar com moedas trocadas, saqueei (muito mais aventureiro do que só tirar) o troco e a garrafa de água. Depois coloquei-me a modos que na "fila" para a entrada. Estava apenas um senhor ao meu lado, encostado às máquinas, mas de lado, e eu seria a seguir a ele. Sorri como que a cumprimentar e dar a entender que o vi e que não me vou por à frente dele.
Já só faltam uns minutos para começarmos a entrar e vem uma "caramela peneirenta" por-se à nossa frente! Ai o caneco! Não sou transparente! Ça m'énerve!


Mas respirei fundo... bem fundo... e voltei ao "afinal vamos todos para o mesmo destino"... Só que ainda estava a respirar fundo e aparece quem?! A descontraída que, em Lisboa, passou à frente na segunda fila! Ai a baixinha não me larga! E aqui vai fazer a mesma coisa... Ainda fez pior: foi direitinha ao balcão com cara de cachorrinho perdido fazer perguntas e ali ficou até se começar a entrar!


Comecei a rir para não me dar um fanico!
Foi pouco depois que tirei o meu passaporte do bolso e o senhor que estava ali ao meu lado me perguntou:
- É Portuguesa?
- Sim, sou - sorri. Quando estamos num país estrangeiro estas pequenas coisas fazem diferença e sentir que pertencemos a "um grupo" é muito acolhedor.
- Não sabia mas reparei pelo seu passaporte... Vai para onde, se não é indiscrição?
- Não, claro que não... vou para Maputo.
- Ah, eu também.
- Sim?! Boa! Veio de Lisboa?
- Sim e aqui já tive um stress...
Bem, a partir daqui havia sempre conversa. O que foi bom pois o tempo passava mais depressa. O stress dele é que teve de sair e voltar a entrar no aeroporto porque ainda não tinha o check in online feito. Mas como não sabia, andou o mesmo que eu até ao terminal para só depois o informarem que tinha de sair e voltar a entrar... então teve de fazer o caminho de volta para sair e depois entrar... Ora, se para mim foi cansativo ali chegar nem imagino o stress dele! A partir daqui vou chamá-lo de Epsil.

Já passava das 21h quando entrámos e devíamos ter ido às 20h45. Desde que não perca o próximo... mas já estou mais descansada a partir do momento em que tenho outra pessoa que sei que vai para o mesmo local que eu!
Vou conhecer agora a Ethiopian Airlines. Assim que passámos no balcão para entrar descemos as escadas para nos dirigirmos ao autocarro que nos levaria ao avião. Fomos sempre de conversa mas eu estava atenta à viagem. Entrámos no avião com lugares dispersos, claro. Mas não havia problema. Trocámos contactos para o caso de não nos cruzarmos mais e cada um se sentou no seu lugar.
O primeiro impacto é muito bom! Avião largo - como eu gosto dos de longo curso - dois lugares à janela de cada lado, dois corredores com 3 ou 4 lugares no meio. Estes já não me dão a sensação claustrofóbica, posso espernear à vontade. Ora, como eu não gosto de ir na asa nem vou em primeira classe, os meus lugares são mais limitados, mas já percebi que as pessoas não gostam dos lugares de trás, coisa que eu não me importo, desde que não sejam mesmo os últimos. Estou mais perto da cozinha para pedir um café ou uma água, mais perto das wc, não o suficiente para cheirar mal, e existe mais a possibilidade de ter um lugar vazio ao meu lado!
Quando me sentei comecei a analisar a coisa: comandinho no braço direito (ou esquerdo, conforme o lugar, eu cá vou sempre à janela); tem direito a phones, mantinha linda, almofadinha mais recheada que a da TAP, jornal e bué da filmes! Não é muito diferente da TAP nesse aspecto, embora a TV pareça um pouco mais "rústica". Apertei o cinto logo quando me sentei e esperei que entrasse mais gente. O avião dividia-se em primeira classe, sempre separada, e a classe turística que estava também ela dividida em duas partes iguais por causa das saídas de emergência a meio. O Epsil tinha ficado na primeira parte da classe económica, eu fiquei na parte de trás... completamente sozinha!!! UAU! Nem acredito que não entra mais ninguém! E não entrou! Começámos a andar...

Lá fora está escuro como breu! Apagaram as luzes cá dentro para nos concentrarmos ainda mais no levantar... brrrrr que arrepios. Não gosto disto! Mas como tem de ser despachem mas é! Ainda nem acredito que estou sozinha ali... hehe
Só quando se ouve o "plim" é que podemos desapertar os cintos e começar a deambular. Foi quando o Epsil veio ter comigo para continuarmos a conversa. Ele sentou-se numa ponta dos lugares do meio e eu no lugar do corredor ao lado do meu original, à janela. E a conversa continuou o tempo todo. Fizemos companhia um ao outro. Foi pouco depois que começaram logo por distribuir as refeições e calhava bem porque já tinha uma certa fome. O Epsil pediu vinho, eu optei pelo sumo e água. Vinho tinto faz-me sono e eu sei que não consigo dormir, não sou muito adepta do masoquismo... Já o sumo - que também não sou grande adepta - tem açúcar para me ajudar a ficar acordada. As refeições são muito boas! Já as televisões deixaram muito a desejar já que não funcionavam, mas como tinha companhia para a conversa...

De Madrid voámos até Roma para uma paragem técnica. Não sabíamos se haveria ou não alteração de avião. Acho que a viagem foi, mais ou menos de duas horas, mas passou realmente depressa por causa da conversa. Obrigada pela companhia Epsil. Foi já pouco antes de aterrarmos que disseram que a paragem serviria apenas para abastecer de combustível e que só teríamos de permanecer uma hora dentro do avião até levantar de novo.
Nunca fui a Roma, nem posso contar com esta "visita de médico" já que não vi absolutamente nada a não ser luzinhas da cidade. Bolas, vejo mais pelo google earth ou maps do que assim! Já perto de terminar a hora de descanso começamos a ver pessoas a entrar no avião.
- Isto vais mesmo encher.
Ora bolas, e eu a pensar que tinha isto só para mim!
O Epsil voltou para o lugar dele e eu não queria ninguém ao meu lado. Aquilo foi enchendo, atestando... mas fiquei sozinha! Sou cá uma "vaqueirosa"! hehe (tradução: sortuda)
Foi só depois de levantarmos vôo novamente que fui dizer ao Epsil que estava sozinha, que se ele quisesse poderia ir para o lugar ao lado do meu. Eu fui logo à wc também pois já parecia um balão...
Não estava muito má, pode-se dizer que mal foi usada até aqui, mas como não pretendo voltar a usar a wc... Quando voltei o Epsil não estava lá, mas chegou poucos minutos depois, também foi à wc.

Não demoraram a distribuir uma nova refeição. Faz sentido comer já para as pessoas poderem dormir. Nesta altura eram já umas 2h ou perto quando começámos a comer. Desta vez pedi vinho! Ganda maluca! Mas pedi sumo na mesma... é porque sou muito "espertinha das ideias"! Mas o vinhito é bom!





À nossa frente iam mãe e filha de uns 3 ou 4 aninhos. Claro que chorou até adormecer mas não incomodou muito. Acredito que deve ser bem mais enervante para a mãe do que para qualquer pessoa. Sou daquelas passageiras que sorri para a mãe como que a compreender a sua aflição e a atenuar o seu stress. Não sou mãe (ainda), mas tenho uma certa facilidade em colocar-me no lugar dos outros, o que me privilegia no que toca a ser compreensível.

Bem, uma das mantinhas confesso que estava já na minha mochila, a outra estava a abraçar-me tipo écharpe. É macia, gira e tão minha que nem vou ler o que diz o plástico onde vinha guardada...


De Roma voámos para Addis Ababa, na Etiópia como é óbvio. Nesta viagem o pessoal dormia e eu lutava contra o sono já que qualquer tentativa para dormir me custava horrores. Chamei então a hospedeira para por os filmes a funcionar. Aquilo dava erro e eu estava a entrar em pânico por não ter diversão que me mantenha acordada. Comecei a lembrar-me de um programa antigo que deu na TV, no início dos Reality Shows. O programa era passada em centros comerciais, acho, e o objectivo acho que era ganhar um carro, já não me lembro bem. Sei que havia um carro e, à volta, estavam todos os concorrentes, uns 10 ou 12. A partir do momento em que se dava início tinham de estar sempre a tocar com uma das mãos no carro, nunca poderiam tirar as duas ao mesmo tempo. Cada concorrente tinha uma pessoa ou várias que ajudavam para poderem comer e faziam massagens nos poucos e contados momentos de pausa para irem à wc. Lembram-se disso?! O que é certo é que as pessoas chegavam a passar mais de 48h ali. Começavam com toda a energia do mundo, muito sorridentes, aos saltinhos como se fossem correr a maratona. Até começarem a esmorecer, a empalidecer, a escurecer os olhos, um ar estoiradíssimo, qualquer posição incomoda, uns olhos de carneiro mal morto (coitadinhos dos carneiros)... E assim estava eu... linda de morrer!

O que vale é que conseguiram por os vídeos a funcionar! Mas é dos que não se consegue fazer pausa, ou seja, tenho vários canais, todos eles a dar filmes ao mesmo tempo. Se estou a ver um, não posso ver o outro. Além disso quando conseguiram activar já aquilo ia a meio e não conseguiram por do início. Ai ai ai ai ai...
A certa altura o "João Pestana" sorria para mim como o Diabo... Acabei por me render e encostar a almofada à janela. Mas não tinha posição suficientemente boa. Comecei a por a cabeça de lado encostando a orelha, mas escorregava. Depois coloquei o cotovelo no braço da cadeira e apoiava o queixo na mão... está muito frio. Tapava com a manta mas se a pele não estava em contacto com a "parede" escorrega. Descobri a melhor: encostar a testa na almofada. Literalmente afucinhar na janela! Foi como consegui "cuxilar" de vez em quando. Não era mais do que 10 ou 15 minutos de cada vez acho. Uma vez acordei a babar-me pelo canto da boca, outra a bater com a testa no vidro porque a almofada resvalava, outra devia já estar a sonhar que estava a cair e saltei da cadeira... quero uma cama!!! Estava a entrar em parafuso! Não há posição que aguente.


Estávamos já a prestes a chegar e o Epsil foi para o lugar dele. Tinha a mala lá. Havíamos de nos encontrar lá fora. Olhei então pela janela e comecei a ver a Etiópia. Comecei por ver diversas bolinhas que são casas assim


ou algumas até assim


até começarmos a sobrevoar a cidade e, deixem-me que vos diga, é muito mais desenvolvido do que alguma vez imaginei! Addis Ababa (ou em inglês Adis Abeba) é uma cidade enorme e pareceu-me muito bonita. Surpreendeu-me pela positiva!


Chegámos às 7h pelo que vi o sol nascer eventualmente entre sonhos.
A confusão no aeroporto já esperava só não esperava que fosse um aeroporto tão grande. Mas lá dei com aquilo. O terminal não era na outra ponta como o de Madrid, era só descer as escadas! Já lá estava o Epsil que tinha feito uma tentativa de ir à wc no aeroporto.
- Estavam tão porcas, sujas e mal-cheirosas que desisti.
Obrigada pela dica! Vou no avião mesmo! Quero lá saber da claustrofobia...
É que num continente de terceiro mundo onde a Sida é tão comum começas a pensar duas vezes antes de correres certos riscos, especialmente em locais públicos.

Foi aqui no terminal que me apercebi que vinha com a manta abraçada a mim... ainda! Significa que saí do avião com a manta à mostra! Mas ninguém me disse nada... só que não fiz mesmo de propósito, até porque a "roubada" estava na mochila... esta não era suposto ser tão "in your face"... é caso para dizer: Ups! hehehe


Não esperámos muito até conseguirmos entrar para o autocarro. Onde estávamos tínhamos o balcão à nossa frente, as portas tipo de saída de emergência por trás e os autocarros lá estacionados, mesmo ali. Começámos a sentir-nos fora de contexto quando as televisões que mostram as partidas vão alternando da página 1 para a página 2. Começam em inglês e passados uns segundos passa logo para árabe! E em árabe permanece por muito mais tempo. E tu ficas especada horas esquecidas a olhar até aparecer em inglês, mas como fica tão pouco tempo, sentes-te a pessoa mais burra dali porque tens de esperar que a mesma página em inglês passe 3 e 4 vezes até conseguires espremer a informação necessária!

Eu tinha combinado com a minha mamã e o JG que daria só toques quando aterrasse e levantasse vôo de novo, mas ali foi impossível. Não havia rede, Tentei com ambos os cartões, português e moçambicano e nada.
Quando chegámos ao novo avião foi uma desilusão completa: só tinha um corredor e 3 lugares de cada lado. Que sufoco! Parece um autocarro mais largo. Aqui cada um foi para o seu lugar. Não dava para estarmos os dois juntos porque o avião ia cheio. Apesar de eu ter sido, provavelmente, a única pessoa com um lugar vazio ao meu lado, assim como a chinesa que ia no lugar do corredor. Mas como era tudo tão apertado e o Epsil ia melhor no lugar onde estava do que se fosse para um dos lugares espremidos. Chamo espremidos porque é o do meio de 3 lugares. Teres uma pessoa ao lado já não é bom, ter uma de cada lado é um horror, digo eu! É porque não consigo encostar-me a lado nenhum. Compreendo aquelas pessoas que, nesses lugares, afucinham no banco da frente! Agora imagina que cais para o lado de cansaço?! Eu hein?! E o lugar do corredor com os carrinhos sempre a passar ou as pessoas... Quanto não vale a janelinha...

Fiquei logo de olho na wc mas só podia lá ir quando ouvisse o "plim". E teria de passar por cima da chinesa. Ouvi o "plim" e vieram logo dois homens com aspecto um pouco sujo... ai a minha sorte... mas enfim, serão só os primeiros e não fazem grande mossa. Pulei por cima da chinesa e eu seria a segunda a estrear a wc do lado direito. Ai ca nojo! Será que o homem é cego?! Não deve ter acertado uma única gota do aquário que tinha na barriga! E que grande aquário! Havia mijo por todo o lado! Ainda abri a porta a pensar que a outra estaria melhor, mas vi outro com o mesmo aspecto entrar e já não era o primeiro, achei que estava na menos porca.


Havia mijo nas paredes a escorrer, nas bordas da sanita, no lavatório, o chão estava a modos que alagado... acho que lá dentro da sanita deveria ser o local mais limpo daquela pocilga. Comecei a tirar papel para limpar as mãos (que é mais grosso) e a passar pelo sabonete líquido e a limpar, pelo menos o que eu iria usar. Depois tirei mais uns quantos e pus no chão para ensopar e não levar o mijo nas solas para o meu cantinho das próximas horas. Levei mais tempo nas limpezas do que no que me levou ali. What a bad experience! E isto foi só do primeiro!

Mais uma vez a viagem começou com uma refeição, desta vez ligeira, afinal eram horas do pequeno-almoço!


Aproveitei para tirar algumas fotografias da viagem.





Aqui vê-se bem um vulcão! Nunca vi nenhum tão "perto"!



As nuvens são tão fofinhas quando não causam turbulência




Ah, este avião não tinha televisões individuais, mas tinha daquelas penduradas no tecto que funcionavam! Então consegui ver os dois filmes que tinha visto em metades na viagem anterior. Grandes conquistas...
A meio da viagem, mais ou menos, começaram a servir a refeição. Confesso que nesta altura já não tinha grande fome, eu queria era uma cama... mas comi na mesma o que cabia. As loiças são de plástico rijo, são tão fofas que as trouxe também. Dão jeito para arrumação, porque sim, porque me apetece, porque são mesmo "cutxicutxi" e porque estou cheia de sono, não me digam nada!
A refeição era sempre frango ou bacalhau. Eu já não podia ver frango e pedi bacalhau. Havia uma tacinha à parte com o arroz e outra com a sobremesa. Como não tinha muito mais para fazer comecei a observar a chinesa que estava com os 3 chineses nos bancos ao nosso lado, depois do corredor. Eram divertidos, estavam sempre a sorrir entre eles. Devia ser das primeiras vezes que andavam de avião. Ela tinha o tabuleiro dela em cima da prateleira e ia provando a comida antes de comer mesmo. Então retirou todas as tampas de todas as tacinhas. Depois de provar o prato quente provou a sobremesa... meteu uma colher na boca e provou como se fosse uma criança a provar papa pela primeira vez, metade fica lá, a outra metade vem para fora com a língua... fez uma careta de "blarg" e o que tinha ainda na colher foi misturar ao arroz! Aqui quem fez "blarg" fui eu! Fez da sobremesa o molho do arroz. A lógica deve ser: se tem arroz fica bom. Eu não podia vomitar porque o castigo era ter de voltar àquela pocilga!

De barriga cheia a chinesa quis dormir, andava a tombar sentada então descalçou-se!!! Vá lá que estava de meias, mas ainda assim a posição veio piorar a coisa e a minha sorte foram os filmes e a janela! Ela recostou-se ao braço do lado do corredor, encostando a cabeça ao banco e pôs os "xulés" no banco que nos separava, mas um joelho encostado aos bancos da frente e o outro ao banco que nos separava! Estava de "xulés" apontados para mim e de perna aberta! Sim, não tinha saia, era o que mais faltava! Mas mas mas... ?! Acho que nunca respirei fundo tantas vezes de seguida...

Vi os filmes e estava empolgada! Isto sim é o meu tira-sono! Mas foi sol de pouca dura já que os vídeos eram colocados quando se lembravam e em cassetes, depois daqueles não puseram mais nenhum e recolheram as televisões. Já não faltava muito, mas hora e meia é muito tempo para olhar "pó bneco"! Saquei a almofadinha de novo e toca a encostá-la à janela... não há posição! Apanhei um pouco de turbulência e andava às cabeçadas! Acordava como se me tirassem o chão, por causa dos poços de ar, e parecia eu que estava com a menopausa dos calores que isso me dava! E depois de dormitar uns minutinhos poucos é o suficiente para ter uns olhos desgraçados! Ainda bem que não ando de espelhinho no bolso... quem quiser que fuja!
Eu preciso é disto!
Tão bué da nice! Tem ouvidinhos e tudo! Despenteia-me mas quero lá saber!

Faltava meia hora antes de aterrar e tinha de ir à wc de novo. Desta vez fui à outra. Estava mais limpa, mas elas andaram a limpar e a repor papel. Só que o caixote do lixo estava caído e pedi que fossem por no sítio. É perigoso em todos os aspectos. Limpei o tampo como sempre faço e pronto, estava muito mais apresentável que da primeira vez.

Reparei que  estávamos a fazer a costa e demos a volta no Katembe mesmo antes de aterrar. «Isto já não é novo para mim» - pensei com um sorriso no rosto.

A aterragem foi das minhas piores... bateu no chão como que a cair e deu um saltinho da força do impacto. Ai a menopausa...
Estava finalmente em terra firme! O Epsil tinha já saído até porque ele ficava sempre em lugares à frente do meu. Encontrá-mo-nos já no aeroporto na fila para a fronteira. Devo ter sido a penúltima a sair do avião, estava mesmo lá atrás. Quando desci as escadas dentro do aeroporto fui logo procurar a folhinha para ir preenchendo na fila da fronteira. Foi muito mais rápido que na minha primeira vez porque já sabia que aquilo demorava e podia preencher na fila. A maior parte das pessoas preenchia primeiro e depois ia para a fila... Tá érrrrádo! Mas façam isso que eu despacho-me mais depressa...

O Epsil esperou que eu fosse buscar as minhas malas. Até foi ele quem as tirou da passadeira e pôs no carrinho. Foi mesmo impecável comigo o tempo todo. Passámos pelo raio-X das malas e voltei a colocá-las no carrinho. Depois o Epsil foi andando e os seguranças ficaram a olhar para ele mas a mim fizeram logo sinal, até porque eu tinha malas bem maiores.
- Precisas de ajuda? - perguntou o Epsil
- Não, obrigada, tá-se bem! - sorri - Boa tarde!
- Bôa tárdi... tá tudo bem com a sinhóra?
- Sim, estou cansada da viagem... saí ontem e só cheguei hoje.
- Ah pois... bem-vinda!
- Obrigada!
- Tem alguma coisa a déclárár?
- Não. Esta mala tem as minhas coisas e esta é para oferecer à Casa do Gaiato.
- Ah é pára us mininos... - e ainda se vira um que estava ao lado
- Foi aquela mala que vimos...
- Sim, é para os meninos. A Irmã já está à espera das coisas.
- Muito bêem... é tudo usado? Não tem coisas novas, pois não? - It's a tricky question... aqui sabes qual a resposta a dar.
- Não, é tudo usado. - Esquece os factos, restringe-te ao óbvio. É como a máxima de convidar as pessoas. Se não queres que a pessoa venha dizes "não queres vir, pois não?", mas quando queres que a pessoa apareça dizes "queres vir?" ou "vens, não vens?". O "não" no início da pergunta é fatal!

E pronto, vim embora toda satisfeita. Fui logo abordada por miúdos a quererem "ajudar", implica pagamento no final da "ajuda" e eu recusei todos já que, se consegui chegar ali consigo muito bem empurrar o carrinho até ao passeio! O Epsil estava lá fora à minha espera e ofereceu-me boleia. Mas o JG tinha destacado um táxi para me ir buscar e o pagamento já estava predestinado. Como o táxi ainda não tinha chegado e eu não conseguia fazer chamadas o Epsil deixou-me fazer chamadas do telefone dele. Pouco depois chegou a boleia dele e o meu táxi chegou pouco depois.

Há porta de casa o JG desceu e toda eu floresci!
Os meus olhos esbugalhados e caídos parecia que tinham botox, o meu sorriso iluminado era a única coisa verdadeiramente bonita mas o bafo de dois dias a esfregar os dentes sem pasta era pior que dragão... as costas endireitaram-se como um velhinho de bengala que se endireita cheio de dores para impressionar uma mulher mais jovem... ai as minhas cruzes! Já nem sabia o que mais me doía... Se o corpo ou o orgulho! Foi o JG que alombou com as malas escada acima, uma de cada vez claro. Uma delas eu fui arrastando até metade de um andar. Sempre fiz alguma coisa. Chegada a casa fui tomar um BANHO, lavar os dentes e deitei-me! Dormi a tarde toda e mais dormia se me deixassem até ao dia seguinte!

Tuesday, September 30, 2014

A VIAGEM DE REGRESSO - Parte II

A nutricionista chegou com os pais de carro. Foi quando vi o "sacalhão" que ia acompanhar o meu "malão enxôrissád"... nem sei como coube tudo no carro, mas "cabeu"! O "sacalhão" tem só coisas para oferecer aos meninos da Casa do Gaiato.
Seguimos para o aeroporto. O vôo é às 15h50 mas como é internacional tenho de lá estar entre 2h a 3h antes para fazer o check in. No estacionamento vi que o "sacalhão" tinha rodinhas, mas para mim não iria fazer muita diferença já que o avião o transporta e não eu - sorriso campeão!
No aeroporto fomos direitinhos comprar um cadeado para por no "sacalhão". Ainda queríamos pesar porque deveria estar com excesso de peso e, por isso, não "enxourissámos". Já com o cadeado na mão fomos de corrida até aos check ins, onde estava também a balança, daquelas industriais, claro. Fez-me lembrar a balança onde peso os miaus no veterinário. Tinha excesso e ela começou a tirar coisas menos importantes que poderiam ir mais tarde. Por curiosidade fui pesar as minhas: 24,700kg no "malão" e 9kg na mochila... ai "Jasus", na minha balança isto não estava assim! Bem, respirei fundo... na pior das hipóteses tirava-se o peso a mais do "sacalhão", mas não queríamos tirar de lado nenhum, só que também não queríamos pagar excesso de peso.
Ainda faltava algum tempo para fazer o check in, mas fui perguntar quais as minhas filas: olha que bom, são as últimas, mesmo ao lado da balança! Fomos logo para a fila mas ainda esperámos uma hora até abrirem. Entretanto a fila ia crescendo tipo nariz de Pinóquio ou pé de feijão... Deixei de ver o fim! O que ia acontecendo, e nos ia entretendo, eram as filas secundárias que iam surgindo assim como quem não quer a coisa. À nossa frente estavam uns tipos que não se calavam e reclamavam com os que se colocavam em segunda fila. A verdade é que, quem tinha crianças, podia passar à frente, assim como os de classe executiva e quem tenha pago a opção de entrar primeiro. Mordomias que o dinheiro compra, mesmo para quem tem crianças. Além desses à nossa frente havia também um espanhol engravatadinho, de fato cinzento claro, cara de mafioso e cabelo "lambido p'la vaca"! Aquele cabelo todo escovadinho para trás, com gel "êmonte" que não mexe nem por nada, perfeitinho tipo cabelo de Ken. Levava com ele um troley pequeno. Típico "empresário executivo", um título muito em voga que não diz nada e, na maioria das vezes, se define por "sou burlão", "tenho uma vida dupla", "procuro um ricaço para enganar" ou somente "procuro trabalho". Frases que podiam servir para a próxima casa dos segredos ou "secretos" (de porco preto) ou "degredos"... whatever...
Bem, o lambidinho foi ao balcão reclamar da segunda fila e dizer para que começassem a chamar pela fila original, a nossa. É que a certa altura a vergonha já não era nenhuma! Houve uma mulher que veio lá do "cú de Judas" mais um bocadinho, sem malas nem bagagens, só com um saquinho, discretamente e com a maior lata do mundo e do outro meter-se à frente dos que estavam em segunda fila!!! Se isto não é lata é uma fábrica de enlatados! A nós até nos caiu o queixo. O espanhol começou a sorrir porque viu logo os da frente... que nos viram de queixo caído e desataram a rir. Depois não fizeram mais nada, começaram a dizer em voz alta: "isto realmente... há uma fila que não é respeitada (e aqui viraram-se directamente para ela) por ninguém! As pessoas acham que podem passar à frente dos outros só porque sim..." Serviu-lhe a carapuça! Eu estava numa de "vamos todos no mesmo avião, ele não vai embora sem nós" mas a lata e a descontracção de algumas pessoas é realmente abismal.
Quando chegou a minha vez respirei fundo e lancei-me descontraída até ver o que me diziam pelo peso. Se houvesse problema seria só mesmo ali já que o check in já tinha sido feito online. Passou tudo com o limite de peso sem qualquer problema! OBAAA! Só não bati palminhas para não dar muito nas vistas, mas fiz um like quando me virei para eles! Depois seguiram-se as despedidas rápidas pois o tempo urge! Obrigada nutricionista e pais! Muito obrigada mesmo!

I'm on my own now... again!
Estava na fila para entrar para o terminal, mostras o passaporte, o bilhete e entras. Depois lembrei-me... tenho ainda uma sandes aqui que não pode passar comigo... mas também não quero deitar fora porque é de croissant muita BOM e... apetece-me! Parei no corredor, saquei o farnel da mochila e "morfei-o" mesmo ali antes de entrar para o raio-X. Calhou bem, até já tinha uma certa e determinada fome.
O vôo está marcado para daqui a 1h45, como é para Madrid fizeram a coisa mais perto da hora, mas dá-me o stress porque não posso atrasar nenhum! Tenho mais duas escalas para fazer e tem de correr bem ou... corto os pulsos com uma colher de plástico! (não tentem fazer isso em casa... não resulta e é estúpido)
Ainda na fila para o raio-X comecei a tirar coisas dos bolsos e a por na mochila, incluindo anel, fio, relógio e cinto (se tivesse). Depois só tive de tirar o portátil e pronto. Depois de passar ponho o meu material todo num só tabuleiro e levo para a mesa em frente para me compor, assim como as pessoas que saem dali quase despidas porque tiraram o cinto e têm as calças a cair, com a fralda da camisa toda amachucada e de fora; em meias porque os sapatos têm aros de metal; descabelados por causa da pressa e da azáfama... vê-se de tudo.

A seguir tenho as escadas. Já estou uma Pró do aeroporto de Lisboa. Para quem não sabe, ao cimo das escadas começam as lojas. Aquilo é um mundo que faz muitas pessoas voltarem para trás porque não querem comprar nada e têm medo que lhes cobrem só a entrada. Mas aqui a Pró vai em frente e dá a volta na maior das descontras. Passo pelos restaurantes e só quero mesmo chegar ao meu terminal para sossegar o stress. Passei pela fronteira e estou em terra de ninguém. Andei mais uns quilómetros (é tudo lá loooonge) e cheguei ao meu terminal.

Sento-me de frente para o balcão ainda encerrado, estou pronta. Lá fora chove, está cinzento, é o Outono a chegar.
Esperei ainda uns bons 45 minutos. Ia observando uma família de italianos. Um casal jovem com três crianças: 10, 6 anos e um de meses. Os miúdos andavam a brincar por todo o lado, o pai deambulava com o carrinho vazio e a mãe entretinha o caçula com aquelas caretas parvas que toda a gente faz para as crianças. Ao meu lado sentou-se uma rapariga aficcionada pelo seu portátil. Quando chegou já o tinha aberto, quando foi embora levou-o aberto, na mão e não parava de teclar. Ainda sentada ao meu lado falaram pelo microfone sobre o nosso voo... oh que surpresa, está atrasado! O stress é bruxo! Encontra-me em todo o lado.
- Qué passa? Está atrassádou? - perguntou-me ela em "espanholez".
- Si, una hora.
Foi quando ela se levantou como se fosse procurar outro voo. Entretanto fomos entrando, claro que já não ia sair a horas porque a hora já tinha passado e ainda nem estávamos dentro do avião. A fila começou a formar-se novamente atrás de mim... começo a sentir que tenho uma cauda mentirosa... (porque cresce como o nariz do Pinóquio, só que para trás de mim) Ainda não tinha começado bem a viagem e já estava estoirada. Afinal levantei-me às 6h!

Meteram-nos no autocarro até ao avião e depois subimos pelas escadas para dentro do avião. Senti-me um pouco claustrofóbica... bem sei que é uma viagem de curso pequeno, só até Madrid, mas... ai que sufoco. É mais pequeno que andar de autocarro. Dois lugares de cada lado e a classe executiva só está dividida por cortininhas minúsculas que pareciam um colete aberto ali pendurado, com buracos para os braços e tudo. Mais uma vez respirei fundo e comecei a apreciar as ironias... Ao meu lado vinha o espanhol lambido e à minha frente a espanhola aficcionada pelo portátil, já com o portátil no colo.

A minha sorte é que o voo é mesmo só de uma hora e demorou pouco até respirar ar puro de novo.
Hola Madrid! Qué tál?

Saturday, September 27, 2014

A VIAGEM DE REGRESSO - Parte I

Ai que dia longo que me espera...

Levantei ainda de noite (6h15) pois tenho o combóio das 7h para apanhar e o Alfa-Pendular não espera! A minha mamã veio comigo, queria estar comigo o máximo possível pois não sabemos quando nos voltamos a ver pessoalmente... é triste pensar desta forma e prefiro nem pensar...
Fomos no meu popó até à estação e, cedo como era, foi fácil arranjar estacionamento. Tinha um "malão enxôrissád" de 23kg e uma mochila de 8kg. Em Lisboa iria ter outro malão de 23kg à minha espera... Ontem à noite pesei as malas e estavam com 22kg e 7kg e qualquer coisa. Portanto, vou nos limites permitidos.
A mamã esteve comigo até o combóio começar a andar... Depois teve de ir embora a pé. Segundo ela, eu trouxe o sol de férias comigo e levei-o de volta pois a caminho de casa apanhou chuva. Até já...

O "malão enxôrissad" coloquei à entrada da carruagem, na prateleira de baixo, nem o conseguia por de outra maneira. A mochila veio sentadinha ao meu lado porque não tinha companhia. Fui sossegada a ver a paisagem durante algum tempo. Ia pensativa e a tentar não pensar em como poderia ficar enjoada que nem uma vaca como é costume no Alfa Pendular.
Na paragem de Loulé entraram pessoas, incluindo um senhor que tinha o bilhete para o lugar da minha mochila. Mas quando a viu:
- Este é o meu lugar... mas deixe estar, vou para outro, se entretanto entrar mais gente logo venho para aqui.
- Tem a certeza?
- Sim, não se preocupe
- Obrigada! - que atencioso!

Continuei a contemplar a paisagem mesmo que sem olhar para o que estava a ver... estava longe dali... Estava ainda em casa com a minha mãe e os meus "mimius"! Estava ainda deitada na areia a sentir os salpicos das ondas a refrescar a minha pele aquecida pelos raios de sol... Estava ainda embrulhadinha no sofá a contemplar o farol com o reflexo da lua cheia a brilhar no manto de água que nos distancia... Estava ainda no meu popó a conduzir com o cotovelo de fora, a ouvir música inspiradora em altos berros, sem destino... free as a bird!

Em Albufeira entraram as pessoas todas dos lugares que faltavam preencher! Claro que o outro senhor veio para o lugar dele e a minha mochila para os meus pés. Foi então nesta viagem para Lisboa que conheci o Einstein, tem um pouco de louco ou de "neurótico" como ele próprio se auto-intitulava. É uma pessoa impecável que me fez companhia toda a viagem. Tem uma história de vida única e fascinante, está ligado ao ambiente e é uma pessoa extremamente culta!
Em certa altura falávamos da forma como os animais são tratados em cativeiro com a finalidade de nos servirem de alimento. São formas tristes e indignas como muitos animais são tratados durante uma vida condenada a ser apenas um prato principal. O Einstein defende que os animais podem e devem sentir-se bem, mesmo que o objectivo seja o mesmo. Com um sorriso nos lábios ele disse:
- Não há nada como comer animais felizes!
Quem me conhece sabe que sou toda a favor dos animais e não suporto vê-los sofrer ou a serem esfolados mesmo depois de mortos. A minha hipocrisia é ser carnívora... E sim, como carne de animais que não são felizes. Não me orgulho. É a minha natureza. Talvez se a sociedade em que vivo fosse habituada a ser vegetariana eu não comesse carne. Talvez se eu me adaptasse... Mas também posso dizer que sou comodista nesse sentido... A verdade é que sinto falta de carne sim. Não me importo de comer mais vegetais e comer carne 3 ou 4 vezes por semana. Mas eventualmente vou comer. Mas já que a como preferia que essa carne fosse de um animal que tivesse tido uma vida longa e feliz! Já há algo que faço nesse sentido: não como vitela. Mas como frango... e o frango que comemos tem 15 dias de vida ou pouco mais... Também não como coelho desde que tenho gatinhos. No talho fazem lembrar gatos... não consigo!

Por falar em animais... estou enjoada... não como uma vaca, mas como uma bezerra!
Já esperava que isto acontecesse. Há uns anos atrás aconteceu-me o mesmo no Alfa Pendular e nunca mais fiz questão de andar nisto, mas é o único horário compatível com as minhas necessidades de hoje e não tive hipótese. Fiz o que o "pardinho" disse, virei-me de lado para não balançar de lado, mas sim de frente... a bezerra continua amarela... Comentei com o Einstein como me sentia, ele disse que poderia ir para a cabine com o motorista, que seria a única forma de passar o enjoo. Achei piada à ideia mas tinha a sensação de que se me levantasse não chegava à porta limpinha e a cheirar bem... É melhor ficar "sugadita" no meu canto a "bezerrar"...
A conversa continuou todo o caminho o que me foi entretendo e, quando me sentia pior fixava um ponto naquele padrão de tecido dos bancos. Ia bebendo água, um golinho miserável de cada vez. Em Entrecampos saímos. Ele ia a uma conferência e eu tinha de ir ao MNE, outra vez!

O Einstein ajudou-me o tempo todo, foi o meu anjo da guarda até seguir o caminho dele. Foi ele quem tirou o meu "malão enxôrissád" do lugar, do combóio e quem o pôs no elevador, que entretanto começou a apitar por excesso de peso. Mas mesmo depois de toda a gente sair do elevador o parvalhão do dito cujo continuava a apitar. Depois disso levava uma pessoa de cada vez quase! Tripou! Lá em baixo, o Einstein ajudou-me a puxar pelo "malão"! Andávamos feitos loucos à procura de táxis! Eu nunca tinha ficado nesta paragem, é certo, mas a complicação de se chegar aos táxis é absurda. Demos voltas e mais voltas, havia outra rapariga com um malão do mesmo género mas em rosa choque a perguntar, feita louca, a toda a gente onde se apanhava um táxi. Mas foi o Einstein que perguntou num quiosque e a senhora respondeu:
- É já ali! - apontou para o que parecia ser uma paragem de autocarro.
Ele ajudou-me a chegar lá o mais rápido possível e a proteger-nos dos salpicos que começavam a chatear... chuva molha parvos agora não dá jeito nenhum! Foi aqui que nos despedimos. Desejo tudo de bom para o Einstein e a sua família! Obrigada.
Pouco depois chegou a rapariga da mala rosa-choque. Estava uma fila de gente, por ordem, e a rapariga ficou no fim da fila. Ela sabia e eu sabia, que quem tinha chegado ali primeiro era eu, embora eu estivesse protegida pelo tecto da paragem. Ainda assim ela virou-se para mim com cara de Madre Teresa:
- Pode apanhar o próximo, não tem problema - mais sei eu que não tem problema e que eu é que apanho o próximo! Cheguei primeiro! Ou em Inglês "yeah, bitch, I know I'm first!... bi-a-tch!" Coitada, não estou a insultar a prestável rapariga mas é que a conversa continuou e não achei grande piada ao resto porque eu respondi:
- Obrigada! - com um sorriso genuíno - Também estou com alguma pressa...
- Não estamos todos?! Toda a gente tem pressa... - foi aqui que deixei de achar piada à conversinha mas ainda assim retaliei com...
- Sim, mas vou apanhar um avião e ainda tenho de tratar de uns assun... - esquece! Porque raio perco eu tempo com isto?!
Meti-me no táxi que entretanto chegou e me pôs a mala no porta-bagagens. Bye bye!

O taxista foi outro prato! Um senhor que pelo aspecto me fez lembrar o Benicio Del Toro mas com 60s e tais, que se ele não me tivesse dito eu nunca diria que tinha aquela idade. Ele adorou saber que aparentava ser mais novo e começou a dizer que usava cremes desde que sabia que os da mulher resultavam. Mas, em tom de gozo e a falar a sério, disse que funcionavam melhor nele que na mulher. Mulher de quem estava separado, mas são muito amigos e o mais certo é voltarem um para o outro, já que se continuam a encontrar e o mais certo é esta separação apimentar a relação de ambos... O Benício estava embalado e eu não me importei nem um bocadinho. Se a viagem fosse até ao Algarve ele acabaria a superar todos e quaisquer traumas de infância e na volta já estaria a ligar à mulher para ir ter com ele à penthouse do hotel mais elegante da cidade, com direito a morangos, champagne, velas e um jacuzzi na varanda em noite de lua cheia!
Foi um gentleman em deixar-me mesmo à porta e a tirar-me sempre a mala. Muito querido mesmo. Quem dera a muitos taxistas!

Ainda agora a viagem mal começou e já estou a sentir-me mais rica em experiências!
Ok, estou em frente aos meus amigos do MNE. Entrei e fui logo atendida. Não tive de esperar. Óptimo. Fico despachada e muito mais tranquila.
A nutricionista vinha buscar-me em breve, eu só teria de aguardar. Então sentei-me num banco do jardim. Aproveitei para comer um pouco do que a minha mamã preparou para mim. Estava com fominha e tinha de almoçar antes de entrar no avião.
Por trás de mim andavam uns gatinhos que vivem por ali. Já da outra vez eles lá andavam. Miavam para chamar atenção mas depois escondiam-se quando alguém se aproximava. Eu fiquei no banco a chamar por eles. Mas entretanto fui lá com fiambre na mão... não fugiram, antes pelo contrário, saltaram do muro para vir ter comigo! Além de não terem medo, sentem que eu sou boa pessoa! Isso preenche o ego de uma pessoa...



Por cima há árvores até dizer chega. Verde, muito verdinho esse que me protegia das tímidas gotas de chuva que caiam de vez em quando. A certa altura sinto uma movimentação mais agitada que uma brisa normal a sacudir a folhas... Depois de quase ficar com os olhos tortos localizei a "agitação"...


Que raio faz um papagaio verde de bico vermelho aqui?! Tão giro! Desde aí passei a segui-lo. Esvoaçava de galho em galho de vez em quando, picava aqui e ali... estava entretido! E eu com ele!
Devo ter ficado aqui umas 2h, mas estava tranquila, tinha muito tempo até a nutricionista passar aqui.
Ela ligou! Está a chegar!

Thursday, September 25, 2014

A ida a Lisboa - Papeladas & Burocracias I!

Acordei exactamente na mesma posição em que me deitei e parecia ter sido há 5 minutos... Foi o Peter que me acordou e eu estava tão compenetrada na coisa que me babei!
Mas tinha que tratar das coisas e isso fez-me acordar fresca que nem uma alface apesar do sono que me perseguia. Além disso, ia hoje para casa! Levantei-me e vesti-me mais depressa do que abri os olhos! Quando dei por mim estava de mochila às costas, pronta para sair de casa. Despedi-me das meninas que entretanto se levantaram. São daquelas pessoas que surgem na nossa vida mas que sabemos que o mais certo é nunca voltar a ver... Apesar de ser bom conhecê-las, a pessoa nunca quer criar laços muito fortes.
Desci com o Peter e a sua bike. Ele acompanhou-me até ao autocarro e despedi-mo-nos. Eu só iria tratar do que não pude tratar ontem e seguiria para casa. Vamos ver se hoje alguma coisa corre como planeado! Até breve Peter, obrigada por tudo!

No autocarro já sabia onde ir ter, tinha tirado as fotografias e já conhecia melhor o caminho a pé. Easy! Nem foi preciso pedir indicações ao motorista. E melhor do que isso tudo: o bilhete que tirei ontem para os autocarro tem a duração de 24h. Como menina responsável que sou guardei o talão - até porque diz mesmo que é conveniente guardar o comprovativo da compra - e estavam lá as horas a que o tinha comprado. Ou seja, continuei sem pagar a mais pois ainda estava válido!

Cheguei ao meu destino, até já estou a ver a "minha rua". Quanto não valeu ontem ter vindo até aqui... Fui toda feliz até ao consulado mas antes de lá chegar começo a ver cabeças... instantaneamente começo a contá-las... 1, 2, 3, 4... ah ok, 'tá-se bem!
Isto porque só são atendidas as primeiras 30 pessoas. Há somente 30 senhas para pedir visto. Se fores o 31 é melhor voltares no outro dia!
Eram 8h11 quando olhei para o telemóvel. Não uso relógio porque tenho pulsos muito fininhos e, geralmente, dançavam-me no pulso, nunca estavam virados para o lado certo e, pior, puxavam-me os pêlos e isso dói!
Bem, isto supostamente só abre às 9h, por isso, sei que vou esperar. Foram chegando mais pessoas e todas iam perguntando quem eram os últimos da fila. Uns sentavam-se no passeio, outros falavam ao telemóvel com auriculares... Parecem maluquinhos! Especialmente quando estão a olhar para ti e a dizer coisas do género "tá?" e tu ficas na dúvida se estão a falar contigo, se é com a pessoa ao teu lado ou atrás de ti... e depois vês os fios e sentes-te a pessoa mais transparente porque, embora olhassem na tua direcção, não te estavam a ver e podias estar ali a fazer o pino, com hula hups em cada perna, a servir bananas numa bandeja... que ninguém dava por ti!
Depois tens a mãe e a filha a lerem uma revista cor-de-rosa para fazer tempo. Coxixam o tempo todo sobre a vida dos outros. Ou as amigas que falam alto para todos acompanharem a conversa, só baixam o tom quando é para dizerem nomes feios... guess what?! Ouve-se na mesma! Ainda há os que fazem vida disto. São pessoas que tratam de papelada das pessoas que vão para outros países. Ou a título particular ou através de agências de viagens. Andam geralmente de mota para não apanharem trânsito. Chegam como se aquilo fosse tudo deles, conhecem a maioria das pessoas que vão cumprimentando como se de fãs se tratassem - apertam as mãos mas nem olham para as pessoas (alguns...). E há os tímidos... enfezadinhos, com roupas decentes mas mal vestidos porque usam as calças clarinhas subidas como se fossem saias de princesa, depois parece que atravessam as cheias porque em baixo ficam curtas... As camisas escuras por dentro das calças, claro, mas com os botões todos apertados até ao pescoço, sem gravata... que sufoco! Para completar usam sapatilhas porque andaram muito ou ainda vão andar e é muito mais confortável; uma sacola a tira-colo para o lado direito e outra para o lado esquerdo! Aposto que o dinheiro está algures dentro das cuecas!

São 9h e chega pessoal que trabalha ali mas não tem a chave e ficam cá fora de conversa com os que fazem vida disto. Muita conversinha de chacha, muitos sorrisinhos peganhentos como que a besuntarem mel para colar mais depressa. Faz parte do biz... Eu compreendo e até acho piada, mas estou farta de estar à espera, cansada e quero ir para casa. 9h15 chega o boss cá do sítio. Pensamos que vai abrir agora... começa a entrar o pessoal que lá trabalha... mas o portão continua fechado. Afinal acho que só abre às 10h! Foi quando começámos a entrar. O boss veio ao portão.
- Bom dia. Tem os papeis? - Tens de mostrar logo tudo ali à entrada, ele dá uma vista de olhos e entrega-se a senha (um cartão plastificado com o teu número). Sou o 6! O ser humano fica em êxtase com coisas tão estúpidas...

Entrei, sinto-me uma VIP! A casa tem um acesso do lado direito onde os clientes aguardam por ser atendidos. Claro que esbarrei logo com a porta. Tento abrir, nada, empurro, puxo... nada! Estavam dois jardineiros encostados a uma pá gigante a olhar para mim com cara de gozo...
- Tem de bater à porta!
- Ah... pois claro. Obrigada. - cara de tacho!
Coisa esperta a porta fechar e ter de bater à porta para abrir... já é difícil conseguir senha! Deixar a porta aberta, não?! Enfim, respira fundo e conta até mil... zen! Sento-me mas rapidamente vou ao balcão pedir uma ficha para preencher. Sei que é necessário e o boss disse para pedir quando entrasse. Estavam outras pessoas ao balcão do lado esquerdo com uns pedidos demorados e a senhora começou sem perceber bem o que pediam. Levei uns 10 minutos só à espera de poder pedir a folha, depois foi só pegar numa folha de um monte que estava mesmo ali e entregar-me! Porque é que esses documentos não estão do lado de fora?! As pessoas têm de os preencher!
Sentei-me e fui preencher. Rapidamente tinha tudo pronto mas estava mesmo cansada e estava ali qualquer coisa mal, mas ok, pergunto quando for a minha vez. Não demorou até ser chamada. Claro que tinha ali uma coisa mal e tive de preencher outra folha. Cheguei-me para o lado e preenchi outra. Entretanto tinha ali as fotografias que tirei ontem, mas eram 4 e deram-me uma tesoura.

Ontem, quando fui comprar a roupa para hoje aproveitei e fui a uma daquelas máquinas de fotografias rápidas que estava na estação de combóio em frente ao MacDonalds. Mesmo a jeito. Aproveitei as 3 oportunidades para escolher a melhor. E uma delas até foi com língua de fora... Alguma tinha de ser com careta senão não tem piada. Já é suficientemente mau ficar parada, a apontar para o centro e a fingir um sorriso à espera de levar com o flash. Mas, foi rápido e eficaz.

Bem, recortei as fotografias, preenchi a folha como deve de ser e aguardei que ele me chamasse de novo. Entreguei a papelada e perguntei se havia algum documento que tivessem de carimbar para apresentar cá relativamente a trabalho. Disseram-me que eu é que tenho de saber essas coisas... Really?! Enfim, paguei e vim embora com o recibo para vir levantar uns dias antes de viajar. Nesta altura já estava combinado entregar esse recibo à minha amiga nutricionista. Ela viria depois levantar o meu visto e, como iria levar-me ao aeroporto no dia da viagem, entregava-me os documentos.

Saí, agora sim, aliviada. De repente sinto o cansaço todo de uma só vez. Respirei fundo e até me deu vontade de chorar pelo stress todo. Mas não chorei, sorri como se o dia finalmente brilhasse para mim! Agora só tenho de ir ter aos autocarros a sete rios para apanhar o meu para casa. Nesta altura já o bilhete diário de ontem não está válido. Mas como tenho tempo vou andando e fui ter novamente ao pé de casa do Peter. Aqui é um centro onde tenho o MacDonalds e aproveitei para comprar o almoço e onde há muitos autocarros a seguirem para zonas diferentes, pode ser que algum vá directo. Mas não, tenho de apanhar dois. Perguntei e o motorista ajudou-me, disse que quando fosse para sair me dizia para eu poder apanhar o outro. E foi impecável. Quando saí tinha duas paragens, mas estava meia lerda de cansaço e só vi a primeira. Fui direitinha ver o percurso dos autocarros e nenhum deles falava em sete rios... comecei a entrar em pânico e a ver-me perdida algures no meio de... nem sei onde estou! Mas depois olhei para o lado!... Há alturas na vida em que uma pessoa se sente tão burra mas tão burra... e depois olhas à volta para ter a certeza que ninguém se apercebeu como se tivesses dado um trambolhão! Ainda é pior... Se for preciso, quando encontras a solução, até te ris da parvoíce anterior e aí sim, as pessoas olham para ti como se fosses um bicho do outro mundo!... Ah, who cares!? Sinto-me tão cansada que me sinto a viver tudo isto através de um filme na TV, como se pudesse fazer o que me apetecesse porque na verdade estou em casa... Não, não estou! A paragem ao lado tinha todos os autocarros para sete rios...

Next stop: Sete rios!
... Não conheço nada disto... Nem foi aqui que apanhei o autocarro ontem! (respirei fundo... bem fundo) Comecei a ler tabuletas, não encontrava pessoas com malas que pudessem ir para o mesmo sítio que eu, vi a entrada do metro e enfiei-me lá para dentro. Podia dizer coisas para pedestres, coisas úteis! Nada, saí só do outro lado da rua... Vi o Jardim Zoológico, gostava de estar com paciência para lá ir, mas agora calha mesmo mal... Olhei para os edifícios à minha volta e havia um maiorzito que poderia ser o terminal dos autocarros. Depois de atravessar umas 10 passadeiras cheguei lá! Era mesmo! Pronto, são 12h, só tenho de esperar até às 15h10. Andei a fazer tempo, acabei por almoçar o hambúrguer que tinha na mochila, sentadinha no meu canto. Assim que o posto de informação abriu fui tratar da transferência de bilhete de ontem para hoje (já tinha sido tratado por telefone). Sem stress.

Basicamente andei a bezerrar enquanto esperava pela nutricionista que vinha ter comigo. Estava quase na hora de ela chegar e vejo uma senhora dos seus 70's a arrastar um malão quase maior que ela, mais dois sacos de desporto sem rodinhas... dava dois passos, parava, dois passos... fui lá, claro!
- Boa tarde! Posso ajudá-la?
- Boa tarde... Oh minha querida, obrigada!
- De nada, ora essa.
- Já me dói tanto as costas e eu tenho aquela doença dos ossos, sabe? - sorri, se não tens uma coisa simpática para dizer, cala-te!
- Não me custa nada ajudá-la. Vai onde? Bilheteira?
- Sim, tenho de comprar o bilhete.
Estive na fila com ela, afinal ia para o mesmo sítio que eu mas apanhou um autocarro mais cedo que eu. Já eram 13h e o dela saía daí a uma hora. Foi quando chegou a nutricionista e veio ter connosco. Pelo bilhete da senhora vi onde iria partir o dela e deixei as malas da senhora mesmo em frente.
- Muito obrigada minha linda! Isto hoje em dia, já não se vê tanta ajuda e faz tanta diferença...
- Não se preocupe, há-de haver sempre alguém a tomar conta de nós! Há sempre alguém! Faça uma boa viagem e peça ajuda para porem e tirarem as suas malas.
- Obrigada...

Eu e a nutricionista fomos para um lugar mais recatado da confusão por a conversa em dia enquanto não chegava a hora do meu autocarro. Dei-lhe logo o recibo para não me esquecer à última da hora. E como havia conversa! Passou num instante!
A viagem no autocarro é feita a ver um filme, mas cansa porque podiam ser dois filmes! Só me apetece dormir e não consigo. Ando, literalmente, com a cabeça aos tombos! Por não me lembrar de alguns momentos tenho quase a certeza que dormitei tipo KO! Sei que uma das vezes acordei por ter batido com a cabeça no vidro... dói. Outra foi o cotovelo que falhou.

Cheguei a Faro! Nem quero acreditar! Fui direitinha para o carro que estava mesmo ali ao lado. Estacionei e, depois de entrar em casa... não tenho sono! Será possível?! Andei de um lado para o outro e sono que é bom neps! Só mesmo à noite consegui cair dura na cama! E apaguei...
Mission accomplished!

Tuesday, September 23, 2014

A ida a Lisboa - Papeladas & Burocracias I

A viagem a Lisboa estava já programada para assim que tivesse o bilhete de avião comprado. Assim que o tinha na mão iniciei a aventura de ir a Lisboa. Falta um mês para voar.
Só podia ser às 2ª, 3ª e 5ª, dias em que o Consulado aceita os pedidos de visto. Durante o fim de semana fiz o trabalho de casa: vi onde ficava o quê, os transportes que teria de apanhar, o bilhete diário para andar de metro e "chapa", as horas a que chegava e a que ia embora de novo... Estava tudo programado ao milímetro! Só podia correr tudo muito... mal!

Eram 5h45 quando saí de casa para apanhar o machibombo das 6h15. Estacionei o carro perto do terminal e juntei-me, meio irrequieta, aos restantes passageiros que por ali deambulavam ensonados. Eu, depois de acordar, fico mais fresca que uma alface! Só me saem parvoeiras da boca e, se fico calada, parece que tenho bicho-carpinteiro! Vinha cá fora ver as estrelas que dormitavam como a maioria das pessoas. Voltava lá para dentro na esperança de estarmos já a entrar... nada. O autocarro chegou pouco depois, vinha de outra ponta do Algarve para seguir viagem para a capital.
A viagem foi tranquila. Eu tinha pedido um lugar em que pudesse ver o filme, que passam em todas as viagens, para não ter de me limitar à minha insuportável paciência de me restringir ao meu lugarzinho insignificante! Vi o sol nascer e o mundo a acordar.

Quando chegámos fui direitinha ao metro para adquirir o bilhete diário de 6€ que me permitiria viagens ilimitadas em todos os metros e machibombos da rede durante 24h. Perfeito! Já cá canta! Meti-me no metro direitinha ao Consulado/Embaixada de Moçambique, que eram no mesmo local. Na saída do metro aquilo baralha-me mesmo por causa das milhentas saídas. Escolhi uma e perguntei a um polícia onde seria. Claro, só podia ser na ponta oposta. Tá-se bem, fui lá ter.

Estranho... sou a única pessoa!? Nem há fila! Dirigi-me ao balcão e disse que queria pedir o visto, mostrei a papelada toda... Vou resumir esta parte porque caiu-me tudo ao chão...
  • O Consulado tinha mudado de poiso há uma semana atrás.
  • O registo criminal que tinha não servia porque dizia "para efeitos de visto" e tem de dizer "para efeitos de trabalho no estrangeiro"
  • Além de ter de tirar um novo registo criminal tenho de o autenticar no MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros)
  • Quando for ao Consulado (já só pode ser amanhã) tenho de ser das primeiras a chegar porque só dão 30 senhas - Isto já eu sabia.
  • O novo local do Consulado fica ao pé dos restantes consulados... no Restelo. hum!? Como eu adoro andar perdida em Lisboa... é tudo "já ali"!
Ok, depois do choque, compus-me e fui à luta! Ainda bem que vim numa 2ª, para poder estar cá amanhã de manhã. Comecei os telefonemas para trocar o bilhete do machibombo de volta para casa e para poder permanecer esta noite. O bilhete diário é válido por 24h, significa que amanhã posso usá-lo para lá chegar, mas já não para voltar... resolve-se.

Voltei a entrar no metro em direcção ao Oriente para tirar o novo registo criminal para o outro efeito... para que serve isto afinal?! Não é o mesmo registo criminal limpo?! Porque é que tem de dizer para que efeitos é que é?! Só é válido por três meses, depois disso já não serve para mais nada. Enfim, é daquelas coisas que não se compreende...

Entra no metro, troca de metro, sai do metro, sobe escadas, desde escadas... perdi a conta daquilo que andei neste dia.
Disseram-me que o pedido de visto ficaria logo num edifício grande do lado esquerdo ao Centro Comercial Vasco da Gama... o "já ali" ficava a um quilómetro de distância. Mas não apanhei machibombo porque seria "já ali". Fui andando ao calor, pelo bafo que se fazia sentir sem nenhuma sombra para atenuar a transpiração. A mochila começa a pesar... Lá achei o dito cujo... Cada edifício com a sua função, ou numa forma mais popular, cada macaco no seu galho! Não havia "cidade" mais pequena?!

http://fotos.sapo.pt/9yZLqNGaqgqCDZmOKt98/

Lá fui onde me competia tirar o registo criminal que é "tirado na hora". Sim, claro. Entrei numa sala para aí com o tamanho de 4 salas de aula. Metade com secretárias lá atrás e balcões à frente, a outra metade com cadeiras em fila como que para assistir a um espectáculo e um espaçorro enorme que dava para fazer uma apresentação de ballet!
Silêncio quase que absoluto, ouvia apenas alguns susurros e os apitos das senhas a passar, o que já não é mau... Aguardei pacientemente pela minha vez, não me restava mais nada. Pedi o que queria e dei o baza o mais rápido possível.

Agora tenho de apanhar os transportes de novo para ir ao MNE que fecha para almoço às 12h. E agora apanho o metro ou o machibombo? Acho uma coisa do outro mundo aquelas pessoas que sabem que autocarro devem apanhar para ir ter onde querem... é um autêntico fenómeno! É que são tantos que nem horários têm! Lembro-me de uma vez que pedi o horário dos autocarros a uma amiga minha (que, por acaso, era da minha terra, mas estava a estudar em Lisboa). Primeiro ficou a olhar para mim como se eu fosse de outro mundo... e realmente sou! Com muito orgulho! Depois ainda tentou...
- Mas não há horários...
- Não há?! Oh, que disparate! Tem de haver alguma coisa onde me diga que autocarro vai para onde quero ir, senão como vou saber quais os que quero apanhar?!
E então ela foi buscar-me um dossier! Um dossier!?! Aquilo era mais grosso que os meus apontamentos da escola!!!

Bem, por me lembrar disto optei mesmo por ir andando até ao metro, aí sinto-me muito bem, consigo planear a minha viagem. Além disso, já tinha feito o trabalho de casa, só tinha de voltar à estaca zero e começar uma nova viagem. A desvantagem de não saber ir lá ter de outra forma é que não chegas a horas... Depois do metro tinha de apanhar um autocarro. Sabia qual queria, só tinha de o apanhar no Marquês. Já foram ao Marquês apanhar um autocarro?! Saí do metro, provavelmente, na saída errada, para variar e fui dar ao lado oposto. Senti-me a sair do esgoto para o mundo exterior! Acho que um campo de futebol é mais pequeno e menos agitado que aquilo! Comecei a atravessar estradas e passeios até chegar, supostamente, onde estavam autocarros e procurei pelo número que me levaria ao meu destino. Quanta importancia pode ter um simples número...

Depois de dar a volta àquele mundo senti-me frustradíssima... aquele número não existe em lado nenhum! Mas não me podia ficar. Entrei num autocarro e perguntei onde apanharia o dito cujo.
- Ah menina - já tou naquela idade que o chamarem-me "menina" soa muito bem! - é numa transversal ali atrás. É só virar a esquina, não tem de atravessar a estrada.
Olha que bem, tão perto e tão long... AAAAAAAHHH Já foi! Acabou de passar por mim na esquina com a pica toda! Tenho de esperar pelo próximo... Cheguei à paragem, o único local ali na zona que não estava a sombra e apanhava com a bola de fogo de chapa!
Vinte a trinta minutos de espera pelo próximo?! Santa paciência... se fico aqui esse tempo todo frito! Tive mesmo de me abrigar à porta do banco. E já sentia um sufoco de tanto calor.

Meia hora depois já se tinham agrupado ali os restantes passageiros e chegou, finalmente o meu machibombo. Entrei e perguntei qual seria a paragem do MNE. Escusado será dizer que o motorista não sabia. Então apliquei os conhecimentos do meu TPC.
- Fica no Palácio das Necessidades.
- Palácio das Necessidades?!
- Bem, acho que sei localizar se lá chegar, mas só queria saber quantas paragens tenho de esperar - Descrevi o que tinha cuscado no google maps.
- Isso deve ser ali na Infante Santo
Bem, fui a viagem toda perto do motorista para aprendermos os dois onde seria a paragem.
Reconheci o local de imediato. Agardecida pela atenção e simpatia, saltei toda lampeira para ainda andar a subir os passeios na cidade das sete colinas. Ups, são 12h20, fecharam às 12h. Ok, já cá estou, vou mas é almoçar descansada.

Havia um café maneirinho mesmo ali. Comisquei umas coisas e bebi água que era só o que me apetecia. Aproveitei para ir à casa-de-banho, já me sentia um pouco fedorenta, transpirada e aflita. Depois de comer lá dentro vim tomar o café para a esplanada enquanto o tempo passava. Aqui respirei fundo... o dióxido dos carros!
Fiz tempo, tinha mais que suficiente. Ir ao Ministério dos Negócios Estrangeiros era a última coisa a fazer e já sabia onde me dirigir, mesmo que não fosse naquela porta não havia de ser assim tão mais longe. Ainda faltavam uns 20 minutos e fui andando nas calmas. A rua é a subir mas ao menos é à sombra.

Cheguei ao largo do MNE e procurei a porta para onde o Google Maps me mandou. Claro que era uma casa particular! Já esperava qualquer coisa assim, por isso fui com tempo. Bem, para esta parte já tinha plano B delineado: Vou ter com os seguranças do edifício principal e pergunto! Quem tem boca vai a Roma, sempre ouvi dizer! Eventualmente vou lá ter...
- Boa tarde. Sabe dizer-me onde posso validar documentos?
- Tem de seguir este muro até lá abaixo e atravessar a estrada. Tem um jardim mesmo em frente.
- Obrigada!
Ora, é já ali! Segui o muro e começo a descer...


A vista do que já percorri...


Bem, é um pouco mais longe do que esperava mas 'tá-se bem. Cheguei ao jardim e só havia uma porta, valha-nos isso! Entrei, não estava mais ninguém... Oh bêlêza!
- Próximo! - hehehe quais próximo?! Só há eu!
Entrei toda lampeira com a papelada em punho e depositei tudo em cima da secretária.
- Boa tarde. Preciso de validar estes documentos, por favor.
Começou a carimbar e ficou-se pelo primeiro.
- Estes documentos precisam ser autenticados por um notário, não os posso validar assim - WHAT?! You're kidding me, right?!


- Cccoooomoo?! - Nem quero acreditar no que estou a ouvir! - Como assim?! Tenho aqui os originais.
- Sim, mas aqui não me servem de nada. Tem mesmo de autenticar num notário.
- Mas... mas eu vim de Faro hoje, amanhã de manhã bem cedo tenho de levar isto ao consulado...
- Ainda tem tempo, são 14h só fechamos às 16h. Se quiser, o notário mais próximo é já aqui em Santos - É já ali... acho uma piada quando os lisboetas me dizem absurdos como o "é já ali"... para mim isso significa no "c... de Judas"!
- Ok... ajude-me só para saber como lá chegar, por favor. Estou a pé mas tenho bilhete diário de autocarro - como quem diz, não tenho guito pa taxi e estou um pouco cansada...
Lá me explicou... mal! Pois claro, fui dar uma volta ao bilhar grande, andei feita maluquinha a perguntar a toda a gente onde raio havia o nº do autocarro que a senhora me deu até que achei uma senhora, muito simpática - daquelas que devem ter vivido sempre a vida inteira no mesmo bairro - que me indicou o caminho para apanhar o dito cujo do autocarro que, segundo a senhora do MNE, me deixava mesmo à porta do notário.

Tive de descer as escadinhas todas e voltar a subir do outro lado, andar ao sol... que bom... já tenho os sovacos assados do peso da mochila! Estava a passar uma ponte que me levaria a uma paragem de autocarro... mas a ponte continuava... e agora?! Qual a saída certa?! Deixei que a sorte (quais sorte?!) me levasse ao destino! Vá lá... acertei! Mas tive de esperar uns 15min... tem sombra, mas estou a destilar. Lá chegou um mas não era o que ela me tinha dito... o meu chegava 1 minuto depois, não vou arriscar. Até chegar o meu fui consultar o percurso... todos vão lá dar! RAIVA! Enfim, não é por um minuto... Claro que voltei a perguntar ao motorista onde seria o notário e dei a indicação que a senhora do MNE me deu e ele deixou-me lá.

Atravessei a estrada e tinha um jardim à minha frente... onde está mesmo a porta do notário?! Agora era aquela altura em que dava jeito uma tabuleta de 20m a dizer «Notário»... Mais uma vez tirei à sorte e fui para a esquerda. Iam umas raparigas à minha frente e perguntei. Disseram-me que para aquele sentido não deveria ser, quanto muito na rua de trás. Dei meia volta e ia começar a subir a rua de trás mas... algo me diz que não é por aqui... Fui para a direita percorrendo casas, lojas, cafés... perguntei a um empregado de mesa... e ele sabia!!! Ena ena! Era de facto perto mas não tinha qualquer indicação e era num prédio de habitação. Oras... como é que, quem não sabe, vai lá ter?! Posso ter muitos dons, mas adivinha ainda não é um deles!

Tem ar condicionado! Valha-nos isso! Devo ter mesmo chegado com mau aspecto. Numa de fazer conversa e ser simpática perguntei onde havia um supermercado (ou mini) onde eu pudesse comprar água pois sinto-me acabadinha de atravessar o deserto... A senhora levantou os olhos da papelada, olhou para mim, sorriu e disse:
- Mas nós temos água, filha, pode beber!
Os meus olhos devem ter brilhado tanto que deixei de ver e fui direitinha à água! Em frente ao "bebedouro" bebi um de seguida, depois ainda trouxe outro de reserva... Voltei mais hidratada e sorridente. Fartei-me de agradecer à senhora e aguardei. Entretanto eu parecia rota. Já tinha mamado dois copos de água e voltei para encher o terceiro, aproveitei para encher a garrafa com águinha fresca, bebi o terceiro que tinha enchido e ainda enchi um quarto! Como diria o grande sábio Caco (Miguel Falabela em "Sai de Baixo") "Isso é coisa dji póbri!" Antes de sair já tinha bebido o 4º copo...

Ok, tempo de apanhar o ônibus de volta! Hoje foi mesmo dia do Caco enchê meu saco com coisa dji póbri! Agora já sabia onde era, mas tive de voltar a descer e subir escadas, subir e descer colinas até lá chegar pois os autocarros grandes não passam lá em frente por serem ruas demasiado estreitas. Mas chego a tempo, espero. E cheguei! Nem acredito! Sentei-me novamente em frente à mesma pessoa.
- Viu como chegou a tempo? - diz-me com um sorriso. Eu sei que foi com simpatia, mas depois do que passei só consegui responder com um sorriso amarelamente transpirado...
Quando saí do edifício senti um alívio tão grande... Mas não estava satisfeita. Eram 15h15 e tinha até às 20h até me encontrar com o meu amigo Peter que me ia acolher esta noite. Além do mais, amanhã bem cedo, antes do galo cantar já eu tenho de estar no consulado... convém saber onde fica!
Ora, como já tenho um PhD em burocracias deixa lá deixar umas migalhas como "João e Maria" para não me perder...

Quando saí do MNE vim andando até descer outra rua íngreme (atenção que, se desci foi porque antes a subi!). E dei de caras com uma paragem de autocarro. O que vale é que estas marotas tão em todo o lado!



Tão a ver aquele carro prateado que parece estar a subir? Vim dali.


Ora, o meu é um destes! Eu quero ir para o Restelo!



Mais uma vez o motorista foi super simpático comigo.
Não fazia ideia de onde seria o consulado nem a rua que indiquei, pois era secundária, mas disse-me:
- Eu vou percorrer o Restelo, quando quiser parar diga-me. Até pode vir até à última paragem do Restelo e sai nessa, mas o pior é que não vai ter lá nada nem ninguém a quem perguntar.
- Ah, não faz mal! Eu desenrasco-me. Já me está a ajudar bastante, acredite!
Assim foi. Fomos andando, eu de antenas no ar a procurar a bandeira, mas nada. Até que chegámos à última paragem...
- É aqui. Esta é a última paragem. Mas como vê são só casas. Quer sair na próxima? Ou então pergunte a esta senhora que vai entrar agora, ela é daqui, pode saber. - Não sabia e nem era dali. A senhora era ucraniana mas disse-me que só se fosse lá para o fundo... Muito vago.
- Eu saio aqui, não tem problema. Muito obrigada! - I'm on my own now!
Assim que o autocarro passou senti-me num deserto... de gente! Só havia casas, ruas bonitinhas, casarões mas ninguém na rua, nem carros... ups! Fui a correr ter com uma carrinha cangoo, daquelas da PT, dos piquetes e assim... daquelas que têm GPS!
- Boa tarde, tem GPS?
- Boa tarde... Sim, tenho.
- Boa! Preciso de saber onde fica... - lá expliquei tudo, mas o senhor foi ver ao mapa. Abriu o mapa localizou a morada mas era... no banco do lado! Nem sequer vinha no mapa! Ai ai ai ai ai...
- Bem, mas ao menos sabemos para onde é. Só que é longe...
- Seja...
- Então vai por aqui abaixo, vira à esquerda e continua até chegar aos semáforos, depois vira à direita. Eventualmente vai ter de perguntar a alguém...
- Ok, obrigada!
Fui andando... ao menos é a descer. Virei à esquerda e seguia-se uma recta sem fim. Semáforos?! Já os devem ter roubado! Apanhei um jardineiro...
- Boa tarde, sabe dizer-me onde é a rua X?
- Ah menina, não sei... mas a rua principal é aqui à direita sempre para baixo. Ao menos vai ter mais gente a quem perguntar. - já não é mau!
- Obrigada!

Desci e como me fartei de andar... depois de umas curvas e contra-curvas para chegar à rua principal deparei-me com um muro, ou seja, ou vai para a direita ou para a esquerda. Atiro uma moeda ao ar?! Fui para a direita... algo me puxa para lá... Uns metros à frente encontrei um senhor à sombra, encostado a um carro. E voltei a perguntar.
- Olhe, por acaso sei onde é! - Que bom! - Mas está mesmo muito longe! - ...
Lá me explicou então que era só ir em frente, andar mesmo muito até chegar a uma avenida grande, depois subir e virar na segunda à direita. Achei bem, temos um plano, uma direcção! Serve-me! Lá fui andando, ia vendo alguns autocarros a passar e a pensar se havia de apanhar um ou não, mas fora da paragem também não posso e não me apetece parar senão não consigo continuar a andar. Depois de chegar à avenida grande passei a primeira rua e reconheci o nome como uma das primeiras que tinha passado... mas nem quero pensar o quanto já estive perto sem saber... é melhor não!
De facto andei como se não houvesse amanhã... mas finalmente alguém me deu a melhor indicação de todas! Era mesmo ali! Este senhor sabia do que falava! Agora sim, tiro fotografias para amanhã reconhecer o caminho, não me vá dar alguma branca...


Cheguei lá e estava fechado, claro. Mas encostei-me ao portão como se de uma mendiga se tratasse na esperança de haver uma alma caridosa... a porta abriu-se! Saiu de lá o responsável e eu perguntei:
- Boa tarde. Já fechou? - Não referi mas já eram 18h15.
- Sim, claro. Agora só amanhã de manhã.
- Pois... amanhã eu volto... obrigada.
- Mas é para pedir o visto?
- Sim, de trabalho. Não tive oportunidade de chegar mais cedo.
- Então volte amanhã de manhã.
- Obrigada.
E vim andando. A rua só tem o sentido que eu estava a fazer agora, por isso, quando ele saiu com o carro passou por mim e encostou:
- Vai trabalhar para lá é?
- Sim, vou.
- Tem os papéis todos em ordem?
- Sim, hoje estive a tratar disso e de manhã estive na embaixada. Lá confirmaram-me tudo.
- Então pronto, amanhã esteja cá bem cedo.
- Sim, amanhã estou aí às 8h!
- Não precisa tão cedo, venha meia hora antes de abrir, é suficiente.
- Ok, obrigada. Até amanhã!
- Até amanhã!
Não vá o diabo tecê-las... amanhã estou aqui antes do galo cantar!

Cheguei novamente à avenida principal e vi uma paragem de autocarro. Dirigi-me para lá e tirei fotografias. Aqui vê-se a entrada para a rua certa.


E a paragem para saber o autocarro que tenho de apanhar. Surpresa das surpresas: vai ter à casa do meu amigo Peter! Só tenho de apanhar este! Oba Oba!


Com um big smile aguardei pacientemente pela chegada do último machibombo do dia.
Agradeço a todos os motoristas que tiveram paciência, muita simpatia comigo e que me ajudaram a chegar ao destino.

Quando, finalmente, cheguei ao meu destino, para ir ter com o meu amigo Peter, vejo um MacDonalds... AAAHHH OASIS!!!
Tinha ainda tempo para descansar um pouco. Fui à wc compor-me, pedi um Smoothie de morango e esparramei-me numa das mesas. Acho que nem sinto as pernas... nem os braços... nem as costas... sinto só a cabeça a explodir! De fora devo parecer um espermatozóide... só cabeça e um resto de corpo mole...
Aproveitei para "limpar" a mochila. Tirei tudo para fora, esparramei as coisas todas em cima da mesa e voltei a arrumar, tudo limpo, arrumado de lavadinho! Tirei a agenda e comecei a planear os dias seguintes: esta semana vou para o Farol! Mas amanhã ainda tenho de ir ao Consulado... Foi quando me lembrei que não tinha roupa a pensar no dia seguinte... Tenho de tratar disso! Ainda assim, tinha bastante tempo e descansei mais um pouco. Quando ganhei coragem levantei-me e percorri a rua até me deparar com o meu destino: uma loja do chinês! Peeerrrrrfect!
Levei tempos infinitos até escolher e comprei uns calções, uma t-shirt e umas cuequinhas. Já me sinto mais civilizada e ainda nem tomei banho!

Já faltava pouco e fui andando para a casa dele, mesmo sabendo que não estaria lá ninguém. Sentei-me à entrada do prédio como se estivesse a pedir mas, ainda assim, não ganhei nenhuma moeda... não devo ser assim tão convincente! Ainda devo ter ficado uns 40min mas nem queria saber...
Ele chegou de bicicleta.

Subimos e ligámos o Skype dele para poder falar com o JG. Matei as saudades instantâneas enquanto o Peter foi tomar banho. Depois trocámos: ficaram os mens de conversa e fui eu para dentro de água!
Sentia-me fedorenta... qual doninha... V. Exma Srª Doninha! Soube-me ao banho do século!
Vesti a roupinha nova e senti-me outra! Desde que não parasse estava pronta para mais! Brrrrring it!
Quando voltei estavam os dois:
- Func... Func... ah, agora sim!
Até o JG a 5000 e tal milhas de distância! Aqui até eu lhes dava razão...

Depois de desligar o Skype descemos para comprar um frango para o jantar.
- Vamos agora encontrar-nos com uma das raparigas que dorme cá esta noite - ele faz couchsurfing, basicamente recebe pessoas de outros países que estejam a viajar e precisem de pernoitar em Lisboa. Quando ele vai para fora, essas pessoas recebem-no. - Esta rapariga é austríaca, é muito porreira. Ela deve estar mesmo ali à frente.
E estava. Tinha chegado de combóio, já tinha ficado a noite anterior lá em casa e sabia ir lá ter. Nós fomos ao frango e ela, como é vegetariana, tinha de ir comprar coisas para o jantar dela. E foi ao supermercado ao lado de casa, nós ficámos de ir lá ter com ela.
O frango maravilhoso que o Peter falava estava ainda encerrado para férias, só iria abrir no dia seguinte. Oh well... ao lado há outro! Levámos o franguinho, pois nenhum de nós estava com cabeça, tronco ou membros para cozinhar fosse o que fosse, e fomos ter com a austríaca ao supermercado. Ele estava desejando comer uma sobremesa, eu já estava por tudo mas não me apetecia uma sobremesa... era mais vinho para celebrar o dia de hoje! Quando chegámos a casa a fominha já apertava e foi por o vinho no frio, por a mesa, tratar da salada para acompanhar enquanto ela preparava a refeição dela, muita conversa, muito riso... e fomos para a mesa. Íamos começar quando chegou a iraniana. Não estávamos à espera dela porque pensávamos que não viria jantar e só chegasse mais tarde. Também não tínhamos nada para ela comer, também é vegetariana... mas ela desenrascou-se e sentou-se à mesa connosco. Todos bebemos vinho, conversámos muito - sempre em inglês - rimos ainda mais... foi uma noite impecável!

Mas não nos ficámos por aqui...
Eu, de facto, estava a cair para o lado há muito tempo mas agora que o dia estava a melhorar eu queria aproveitar para compensar as coisas más! Então ainda pegámos em nós e fomos a pé até à praia! Atravessámos a linha do combóio - em segurança, estamos a falar da linha de Cascais - e andámos uns 300 m. Sempre muito bem dispostos!
Quando voltámos é que já vínhamos a cair... Então ele foi para o quarto e o harém ficou na sala: Eu no sofá e elas, cada uma em seu tripartido, uma de cada lado do sofá. Lembro-me de proferir ainda algumas palavras... e devo ter caído num sono tão profundo que quando acordei estava na mesma posição!